sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Conceito

Ser poeta é não dormir
Quando há versos pra escrever.
É palavras acalmar,
Todas pondo no papel.

Poesia é ter razão
Que pondera, pesa e mede.
Mas é ter também paixão
Que se arrisca e às vezes perde.

É viver sensível à arte,
Sons materializar,
Atentar aos filmes clássicos;
É um quadro observar.

Há poesia no profundo
E nas coisas triviais;
Há no longo ou eterno,
No efêmero e fugaz.

Está na “mulher que passa”,
Está na mulher que fica,
Na mulher “que fica e passa”,
Na mulher “que pacifica”.

Entender a poesia
É acender a ser humano;
Não ser somente uma coisa,
Ser gente que sente e ama.

Nos olhos de uma menina
A poesia passeia.
Se ela tira sua blusa,
A poesia incendeia!

O poema não é purista,
Não é coisa lá do céu.
O poema é coisa nossa,
Meio carne e meio mel.

Quando um dia for poeta,
Vou dizer tudo o que penso
Com uns versos meio tortos,
Feitos de amor e de vento!

Júnior Dinucci

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Leonino

Nomeio-vos as três metamorfoses do espírito: como o espírito se torna um camelo, o camelo um leão e, por último, o leão uma criança. (Assim Falou Zaratustra - Friedrich Nietzsche)

Um pequeno interstício
Breca o caminho da mutação.
Um calo na noite,
A romper de manhã,
E a voz erguida
Na direção do universo desconhecido.
Uma nuvem,
E a dúvida precipitada
Desperta medo.
A ciência e seus limites
Batem-me com paus na madrugada
Da existência.

Saudoso do camelo,
Aguardo a criança.

Júnior Dinucci

domingo, 25 de janeiro de 2015

Poema Independente

A vida,
Seu envelhecer,
Está
Não na multidão dos anos feitos de dias,
Nem nas celebrações e ritos de passagem...

A vida,
Que todos perseguem suas flores e frutos,
Não são essas cores que se acendem ao amanhecer,
Ou esmaecem,
Ante a chegada do outono.

A vida,
Por capricho de existir,
Ela está não no que vemos,
Que admitimos,
Que fazemos.

A vida, meus caros,
Está nesta oportunidade,
Que corre de entre dedos,
Por medo ou vaidade...
Por imaturidade.

A vida,
Devo dizer,
É boa
Apesar de tudo isso que deveria ser
Mas que, infelizmente?, não depende (só) de você.

Júnior Dinucci

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Poema Alheio

A noite sombria habita corpos de homens decompostos pelo presente.

A solidão confabula com os sentimentos diluídos em névoas por entre mares de hipocrisia e desilusão.

Margeamos a vida como seres antipáticos à existência,
Que se desintegra também com essa carne feita de miséria.

O homem não mais existe;
Apenas a falência entrevada no ser anêmico incapaz.

Mulheres caminham sombrias à procura de seus filhos que se perderam já, 
Como folhas caídas pelos caminhos do passado.

A história não alcança a marginalidade da Gente
E passamos duma a outra era como meros expectadores da nossa destruição.

Inválidos ante todo poder que corrompe o sistema...

Animais que caminham sobre suas quatro patas demonstram maior altivez e austeridade que o homo sapiens.

Não há dignidade em nada que nos pertença.

Se se defendem direitos humanos, isso é absurdo.

Nossa condição nos faz menos que vermes que nos roemos uns aos outros nesse diabólico rito canibal.

Não sabemos para onde ir senão para o caos, que construímos com nossas próprias mãos e a largos passos.

Os cães, pelas ruas, caminhando errantes,
Demonstram maior consciência de si do que os que estampam o status quo de ser.

Sepultamos nossa civilização exatamente com o que entendemos civilizado.

Do meio da mata fechada, o selvagem antepassado ergue urros desesperados olhando para onde caminhou.

Não há esperança para nossa demência de ser grande.

O fim nos aguarda próximo, de boca aberta para nos digerir...
E logo vomitar.

Nada suporta o gosto degradante daquilo que nos tornamos.


Júnior Dinucci

Parto

Não são as coisas acontecidas...

Essa poesia triste
Habita a multidão do que não foi,
O desejo arbitrariamente sufocado pelo não,
A vontade de ser afogada em medo alheio.

São versos feitos de miragens,
Rimas mortas,
Sepultada ilusão.

E o caminho segue
Frio e seco como a noite num deserto infinito
De céu sem estrelas,
Extintas pela estúpida cegueira
Que não enxerga o amanhã agora.

A música do poema
Desafina feita lágrima vertida,
Enquanto o canto da boca apaixonada ri-se de existir.

O improvável habita o esquecimento do poeta,
Que restou insensível
À multidão.

Tudo que gritam à janela do meio da sala,
Nada importa se a alegria alada
Corre distante
E, como um pesadelo infantil,
Amarra nossas pernas de ser.

Ao poema, amargura o não-mudar e,
Nada muda o mundo o nosso choro mais profundo,
Que nunca geme,
Que ninguém vê.

Por não deslizar líquido sobre as nossas faces,
Converte-nos em bárbaros miseráveis,
Lançados ao mar em fúria,
Potentes para suportar
As vagas vis da tempestade.

A métrica inexistente da vida desaproxima as identidades,
Materializa-se no poemar:
Transforma em pó e lança ao mar.

Criador e criatura fundem-se na mais pura cópula animal
De forma que, no entrelaçar incestuoso,
Alcançam qualquer plenitude.

Foge o poeta, na confecção do poema,
Que a vida é amarga longe da aceitação.

Escrever dá luz à paz; ou dá à luz a paz.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Poema Feito de Ar

A vida é feita de oportunidades;
E, mesmo encostadas
Todas as portas,
A última aberta,
Quando a fechamos,
Sua pressão empurra
E esse ar deslocado
Abre outra.
Uma fresta, talvez.
Dali vem a luz,
Que resgata da desolação,
Desfaz o desapontamento
E permite que,
Saindo,
Encontremos o que não sabemos ao procurar.
Apenas não tranque a porta.

Júnior Dinucci

Retratos

Cansado de me esgueirar em meio a futilidades,
Passo à clausura do remoto inconcebível.

Eles passam, elas passam...
Evito o olhar vazio
Que seus olhos estão vazios;
Vazios são seus pensamentos por trás da retina,
Habitando a imensidão de uma mente vazia.

Toda essa produção que vejo,
Tudo maquia a chancela da verdade,
Surrupia a essência dos seres,
Inventa animais intocáveis
Que nunca doem,
Nunca erram,
Jamais choram.

No mundo em que moro
Há gente de todo tipo
Homogeneizada pela inverossímil perfeição.

Tanta beleza tanta cansa, fere e marca
Como um câncer crescente
Cuja malignidade avança, deteriorando, do pouco, o que restava humano.

Nas ruas e nos bares não há lamentos
Mas um senão sob cada sorriso brilhante.

Se sofrem, brevemente, doença ou morte,
Tudo é breve.
E logo a máscara de herói se apega à face
Sugando para si o último suspiro definidor de gente.

A vida transmutada em palco
Com tantos atores medíocres...
Desesperados, buscam aplausos.

E os aplausos vêm...
Misturados à inveja e ao desprezo,
Comuns a esta contemporaneidade deficiente

Júnior Dinucci

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Mais Que Dois

"O que eu amo é uma virtude terrestre: acrescida de um pouco de prudência e o mínimo de sabedoria cotidiana." (Friedrich Nietzsche)

O amor não está na esperança nutrida;
Não se esconde no inefável entre estrelas.
O amor,
Hermético aos púberes,
Não é feito de coisas sonhadas;
Nem de noites insones,
Ao som de acordes menores.
Ele se ocupa de coisas tangíveis,
Está no dia-a-dia.
Feito de carne, osso, gestos,
O amor não se reduz a um;
Estende-se,
Se real,
Como força centrípeta,
Partindo daqui da pessoa amada
Para os que moram ao lado,
Que não têm o que comer
E passam frio de madrugada.
O amor não se limita.
É dia trabalhado pelo outro,
Esforço não negado
Para o outro.
E do outro para os outros
O amor conquista o mundo,
Que o amor é também mais que dois.

Júnior Dinucci

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Filho Morto

“A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. 
(Chico Buarque)

A morte estraçalhou o espírito daquela mulher. Seus restos se espalhavam invadindo-me as narinas da existência. Flechas pontiagudas fincavam-na, vindas de todas as direções. Eu, ali, enquanto, lacerada, seus olhos inundados procuravam nos meus, assustados, uma resposta qualquer. Sem sucesso. Com suas chagas, todas elas vertendo desespero, arriscava, ainda, uns passos na alcova, agora, sombria.

Sim, ele se fora. Nunca sonho e ilusão foram tão sinônimos quanto diante daquela imagem terrível. Sepultaram-no com seus poucos anos, tudo que ela um dia amara mais que a qualquer outra coisa. Seu filho, seu único. Para ela, pequena e frágil, um peso enorme, o ultraje, a maior violência; teria que suportar. Eu ali, inerte, apenas observava as expressões no rosto de mãe. Não havia o que dizer-lhe.

Mexia nas coisas dele, procurava em seus cadernos alguma anotação. Queria o contato com qualquer coisa do filho que lhe fosse nova. Rabiscos serviam para trazer um lampejo de sorriso que logo era sugado para o abismo profundo que nela se abrira. Apanhou um livro, dizendo que acreditava mesmo que “ele gostaria que fosse meu”. Comovido, aceitei. Ela, sentada ao meu lado na cama que fora dele, inconsolável.

Não era pra menos. “Um cara jovem, de projetos, correndo atrás”, de repente, cessa. Não faz sentido, num mundo de suicidas que se esforçam sem êxito. Uma fração de segundos, uma questão de escolha; está morto. Buscou a voz do que partira, mergulhada em sua religião. Frustrada, abraçou sua condição inominável, que não há palavra que classifique uma mãe a quem a morte usurpou.

Deixei com um abraço entre soluços quem embalara um amigo. Cheguei à minha casa e abracei chorando quem me trouxera à vida. Tive, na verdade, compaixão de todas as mães do mundo. Todas merecem compaixão. Fui outras vezes à casa daquela mãe que, hoje, vejo apenas de passagem. É a vida. O vazio nela, quem saberá o tamanho? Sei que vi encarnada a dor, no sofrimento duma mãe enlutada, ocupando um quarto vazio.

Júnior Dinucci

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Santo Cão

Shiba era um cão muito valente. Desde pequeno, porque muito confiado em seu porte e agilidade, vivia a se desentender com outros cachorros. Não que fosse "só" ruim. Shiba era querido por amigos ainda que, vez ou outra, os afrontasse ou brigasse com eles. Era capaz de ter algumas amizades.

Uma vez, muito tempo atrás, Shiba levantou-se contra Pequinês. Pobre Pequinês... tão miúdo, só fazia latir e correr; em vão. Shiba, mais forte, ágil, de patadas violentas e dentes afiados, maltratou Pequinês, que jamais se esqueceu da sova. Mas Shiba e seus amigos, ah, esses se esqueceram, porque quem bate acaba esquecendo.

"Santo Cão"
Depois, outra ocasião, Shiba pegou pelo rabo um Bulldog velho. O pobre Bulldog relutou. Não queria bater de frente com Shiba; sabia de sua fama. Mas Shiba pagava para entrar numa briga. Bulldog, de idade avançada, baixou a cabeça, pôs o rabo entre as pernas, mas não adiantou. Shiba avançou e bateu nele assim mesmo.

Porque sempre saía no “lucro”, Shiba ia se criando até que, aparentemente, ia se dar mal. Um tal Chow Chow, esperto, dentes fortes, avançou primeiro, antes que Shiba, e deixou-lhe no peito a marca dos dentes. Mas depois, Shiba pegou-lhe desprevenido e pagou na mesma moeda: dente por dente. Shiba era mesmo o bicho.

Acontece que, na vida, ninguém vence o tempo todo. Shiba, depois de tanto morder e tanto botar pra correr, foi um dia pego. Uma matilha pegou Shiba, mordeu, mordeu, mordeu até não poder mais. Shiba ficou muito mal. Mal de verdade. Shiba, muito querido, porque tinha bons amigos, parece que Shiba nunca tinha merecido.


Os cães, amigos de Shiba, uivaram e uivaram doído. Ora, Shiba era seu amigo. A matilha que batera em Shiba eram os maus, deveriam mesmo ser sacrificados, deveriam pagar muito caro, porque, “ora, porque sim!”. “Shiba é um cão muito bom, um cão de pedigree”, diziam. “Não merecia”. E, assim o combalido Shiba era feito o primeiro santo do mundo canino. 

Júnior Dinucci

sábado, 10 de janeiro de 2015

Santo no Avião

Sobre a morte de Eduardo Campos...

A santidade ocupa um avião caído.
Entre escombros, imagens de tragédia,
Pedaços de corpos carbonizados,
Habita a santidade.

Ei-la anunciada na voz pungente,
Embargada, da apresentadora de telejornal;
Nas considerações eloquentes dos opositores
Que, até então, só faziam acusar.

A santidade encobre, no meio de todo esse fumo
E palavras reviradas como a terra
De um terreno de uma cidade,
Os pecados do pecador.

Não há, no avião caído,
Espaço para a corrupção,
Para a improbidade...
Não há, nele, espaço para a prevaricação.

Esmagado pelo tempo,
Pelas nuvens,
Pelo acaso (?),
Admite, apenas, o bom, o belo, o verdadeiro.

Há, fora do avião,
Espaço para o razoável?
Há lucidez
Fora do avião?

Caiu,
Como outros tantos caíram,
Mas percebido,
Como outros tantos não.

Ouvimos do meio da caos,
Da queda inesperada,
A voz, como de santo,
Ressoar, expulsa do pleito e da vida.

Não fosse o caos,
Conheceríamos a voz profética,
Cheia de graça,
Hoje exaltada?

A morte torna humanos
Aos vivos, e divinos
Aos mortos...
Não deveria ser assim.

Júnior Dinucci

Comigo, refletindo, permaneço

Comigo, refletindo, permaneço
Acerca da questão que tu desprezas.
Pois vives vão, cumprindo sempre às pressas
O que te determinam como preço.

Tu não questionas uma vez sequer,
Aceitas a mentira vomitada.
Passivo, tu te escondes sob a fé;
Engoles a "verdade" ignorada.

Se fosse o teu silêncio amor a Deus,
Teria, teu agir, meu olhar terno
E não o condenar dos olhos meus.

Mas devo confrontar-te com a verdade:
Aos gritos, tua santa piedade
Revela que só tens medo do inferno.

Júnior Dinucci

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Poema de Regresso

Voltas deliberadamente ao lugar que amas.
Observas, aturdido, a face de mil rosas que deixaste.
Lembras risos que lhe davam todos os sóis da noite,
E contas a ti mesmo sensações confusas que sozinhas se explicavam.
Caminhas como quem pisa as águas sagradas do mundo.
Estás no lugar que amas.
Voltaste deliberadamente
Que, se não voltasses deliberadamente,
Voltarias arrastado contra ti
Por aquelas mesmas águas sagradas.
Serias conduzido pelas muitas vagas
Que achavas dormentes no interior,
Mas que sempre se levantam, como se levantaram.
Trouxeram-no ao santo céu do teu afã.
Duvidaste do retorno, sempre natural,
Que ninguém jamais escapa ao final-destino.
Estás agora leve, mais que a brisa leve,
Flutuando acima de teus próprios sonhos infantis;
Ilusões, sonhadas distante da fatalidade.
Embevecido vês que o fim do homem
Não será senão seu próprio destino,
E aceitas, incrédulo, a felicidade maior que tiveste,
De que duvidaste, embora, quando correntes deslizavam pelas penhas
Fazendo-te forte para, somente agora,
Estares apto à graça que recebes assustado.


Júnior Dinucci

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Quiproquó


A adolescência permite-nos momentos hilários, sem dúvida. Não obstante as muitas oscilações de humor, que nos deixam qual veículo conduzido por aprendiz; mesmo sujeitos às paixões “avassaladoras” parindo poetas à revelia que, em seguida, morreriam por quem ainda não entrara na história, sim, a puberdade é cômica, se tocamos o ponto certo.

Para os garotos, coisa complicada desse período de transição é, sem dúvida, a transformação da voz. Tocamos uma gaita desafinada na infância e, de repente, a vemos converter-se em tuba. Tal conversão fosse instantânea, tipo, deitamo-nos para dormirmos e ao amanhecer, zás!, a voz é outra, beleza. Entretanto, não é assim. O processo é lento e coxeamos entre um instrumento e outro por tempo considerável.

Some-se ao posto o atabalhoamento, comum à idade. Não somos crianças, mas não amadurecemos, embora insistamos em acharmo-nos gente grande. Falamos lentamente, falamos depressa, falamos demais. Tudo mais desafinado que Vanusa em dia de Hino Nacional. Quando o interlocutor tem bons ouvidos, muita paciência e tino para adivinhação as coisas dão certo. Se falta ao receptor uma dessas virtudes, a conversação pode descambar a ponto de fazer a Aulularia de Plauto café pequeno com sua confusão.

Então! Foi o que me aconteceu muito tempo atrás. Acontece que, aos sábados, amanhecendo o dia, meu pai, viciado em futebol, participava de uma pelada num campo aqui perto de casa. Um primo seu, Paulinho, também era assíduo frequentador daquele ambiente de semiatletas, que se reuniam semanalmente. Por ordem, fui à casa do dito primo a fim de confirmar sua presença. Peguei a velha magrela e, interessado também numa vaguinha que sobrasse, corri, atendendo à solicitação do progenitor.

No entanto, chegando à casa do homem, quem me atendeu, a mim, um adolescente, meio gaita, meio tuba, foi o senhor Olindo, agora falecido, sogro do Paulinho. De idade avançada, chegou ao portão e ouviu-me (ou não) inocentemente dizer-lhe: “Seu Olindo, o meu pai mandou perguntar se o Paulinho vai ‘bater pelada’ no campo”. O velhinho, confuso, olhou aturdido, parecia em choque. Como não disse nada, repeti a mesma frase. Senhor Olindo deu-me as costas, não entendi nada, voltei e relatei ao meu pai, o ocorrido.

Passados alguns minutos, estou em casa, meu pai também, brotam em meu portão as figuras de meus primos distantes, dois filhos do “peladeiro”. O rapaz acabrunhado, a moça aos prantos. Perplexo, fui atendê-los. A moça foi quem primeiro dirigiu-se a mim, em meio às lágrimas perguntando-me “como eu tinha ficado sabendo que seu pai tinha sido atropelado em Campos”. Sofri um baque, dei dois passos para trás, e após me recompor disse que eu não estava sabendo de nada disso. Fui conversando para entender o que ocorrera.

Bem, como disse noutro parágrafo, a mensagem do adolescente, para ser entendida, deve estar livre de qualquer outro ruído que não o que habita sua própria fala atonal. O saudoso e vetusto senhor, coisas da idade, não ouvia mais tão bem e eu falava muito mal. Para agravar a situação, a circunstância: o Paulinho, a trabalho, tinha mesmo viajado para Campos dos Goytacazes. A família, juntando uma e outra coisa, entendeu o pior. O homem, para eles, não ia bater pelada no campo; tinha sido atropelado em Campos.

Esclarecidos os pormenores, os jovens voltaram à sua residência e decodificaram a mensagem aos demais. Eu procurei falar mais lentamente e ser ainda mais diligente ao dirigir-me a pessoas de idade. Mas que foi engraçado, porque não foi trágico, ah isso foi! Lembro-me até hoje daquele dia, como se estivesse desenhado nas páginas de minha memória. O Paulinho está muito bem; não bate mais pelada no campo, infelizmente, mas, graças a Deus, não foi atropelado em Campos, nem em nenhum outro lugar.

Júnior Dinucci

Uma Laranja


No começo da década de noventa, a vida, acho, era mais espinhosa para a maioria dos brasileiros. Para mim que, inda hoje, preciso muito correr atrás, não era diferente. Tempos difíceis aqueles, de geladeira vazia... Na despensa, apenas o básico do básico. Mas vivíamos.
"...vez ou outra contemplavam nossa pequena casa."

Diferentemente, havia no mesmo aglomerado de terra e gente em que residíamos alguns que sobreviviam a duríssimas penas; quem não tinha mesmo à mesa o mínimo para suster-se, que passava muitas vezes, como esses cães de rua, à mercê do que a natureza, já rala, oferecia. Escalando pés de manga, abiu, goiaba, jambo; comiam do que a estação tinha, ou não tinha.

Uma vez, isso nunca me esqueceu, saí de casa com uma laranja. Essas frutas nacionais, mais populares, vez ou outra contemplavam nossa pequena casa. Parei conversando com um amigo (aqueles infindáveis e pueris assuntos de crianças do tempo em que era possível estar na rua sem ser da rua). Findo o raro sabor, descartei o bagaço num canto de poeira por ali.

Minutos depois, chegou um garotinho, magro, raquítico mesmo, como que saído de uma dessas histórias de sertão. Assentou-se num cantinho acuado enquanto o outro garoto e eu falávamos de qualquer coisa, empolgados. Foi quando me assustei, vendo aquele menino debruçado sobre o resto, devorando o que eu jogara ali, à sorte do tempo.

Sou hoje bem pouco, trabalhando e estudando, cavando ainda, espremendo a vida em busca de alguma coisa, qualquer sumo, como um dia espremi aquela fruta. O pequenino, cuja vida sempre foi um bagaço, transformou-se em contraventor, esteve preso, creio que ainda está. Coisas desse mundo, tão injusto quanto é.

Eis a lição: para um pobre, há sempre outro mais pobre. Para um endividado, outro em desespero. Para os dois, alguém apodrecendo em vida, aguardando, somente, o chamado da morte. E o garoto não me sai da cabeça. É bom mesmo que não saia. Não sei se poderia mudar sua vida, mas pesa-me não lhe ter buscado uma laranja.

Júnior Dinucci