“A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.
(Chico Buarque)
A morte estraçalhou o espírito daquela mulher. Seus restos se espalhavam invadindo-me as narinas da existência. Flechas pontiagudas fincavam-na, vindas de todas as direções. Eu, ali, enquanto, lacerada, seus olhos inundados procuravam nos meus, assustados, uma resposta qualquer. Sem sucesso. Com suas chagas, todas elas vertendo desespero, arriscava, ainda, uns passos na alcova, agora, sombria.
Sim, ele se fora. Nunca sonho e ilusão foram tão sinônimos quanto diante daquela imagem terrível. Sepultaram-no com seus poucos anos, tudo que ela um dia amara mais que a qualquer outra coisa. Seu filho, seu único. Para ela, pequena e frágil, um peso enorme, o ultraje, a maior violência; teria que suportar. Eu ali, inerte, apenas observava as expressões no rosto de mãe. Não havia o que dizer-lhe.
Mexia nas coisas dele, procurava em seus cadernos alguma anotação. Queria o contato com qualquer coisa do filho que lhe fosse nova. Rabiscos serviam para trazer um lampejo de sorriso que logo era sugado para o abismo profundo que nela se abrira. Apanhou um livro, dizendo que acreditava mesmo que “ele gostaria que fosse meu”. Comovido, aceitei. Ela, sentada ao meu lado na cama que fora dele, inconsolável.
Não era pra menos. “Um cara jovem, de projetos, correndo atrás”, de repente, cessa. Não faz sentido, num mundo de suicidas que se esforçam sem êxito. Uma fração de segundos, uma questão de escolha; está morto. Buscou a voz do que partira, mergulhada em sua religião. Frustrada, abraçou sua condição inominável, que não há palavra que classifique uma mãe a quem a morte usurpou.
Deixei com um abraço entre soluços quem embalara um amigo. Cheguei à minha casa e abracei chorando quem me trouxera à vida. Tive, na verdade, compaixão de todas as mães do mundo. Todas merecem compaixão. Fui outras vezes à casa daquela mãe que, hoje, vejo apenas de passagem. É a vida. O vazio nela, quem saberá o tamanho? Sei que vi encarnada a dor, no sofrimento duma mãe enlutada, ocupando um quarto vazio.
Júnior Dinucci

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