quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Quiproquó


A adolescência permite-nos momentos hilários, sem dúvida. Não obstante as muitas oscilações de humor, que nos deixam qual veículo conduzido por aprendiz; mesmo sujeitos às paixões “avassaladoras” parindo poetas à revelia que, em seguida, morreriam por quem ainda não entrara na história, sim, a puberdade é cômica, se tocamos o ponto certo.

Para os garotos, coisa complicada desse período de transição é, sem dúvida, a transformação da voz. Tocamos uma gaita desafinada na infância e, de repente, a vemos converter-se em tuba. Tal conversão fosse instantânea, tipo, deitamo-nos para dormirmos e ao amanhecer, zás!, a voz é outra, beleza. Entretanto, não é assim. O processo é lento e coxeamos entre um instrumento e outro por tempo considerável.

Some-se ao posto o atabalhoamento, comum à idade. Não somos crianças, mas não amadurecemos, embora insistamos em acharmo-nos gente grande. Falamos lentamente, falamos depressa, falamos demais. Tudo mais desafinado que Vanusa em dia de Hino Nacional. Quando o interlocutor tem bons ouvidos, muita paciência e tino para adivinhação as coisas dão certo. Se falta ao receptor uma dessas virtudes, a conversação pode descambar a ponto de fazer a Aulularia de Plauto café pequeno com sua confusão.

Então! Foi o que me aconteceu muito tempo atrás. Acontece que, aos sábados, amanhecendo o dia, meu pai, viciado em futebol, participava de uma pelada num campo aqui perto de casa. Um primo seu, Paulinho, também era assíduo frequentador daquele ambiente de semiatletas, que se reuniam semanalmente. Por ordem, fui à casa do dito primo a fim de confirmar sua presença. Peguei a velha magrela e, interessado também numa vaguinha que sobrasse, corri, atendendo à solicitação do progenitor.

No entanto, chegando à casa do homem, quem me atendeu, a mim, um adolescente, meio gaita, meio tuba, foi o senhor Olindo, agora falecido, sogro do Paulinho. De idade avançada, chegou ao portão e ouviu-me (ou não) inocentemente dizer-lhe: “Seu Olindo, o meu pai mandou perguntar se o Paulinho vai ‘bater pelada’ no campo”. O velhinho, confuso, olhou aturdido, parecia em choque. Como não disse nada, repeti a mesma frase. Senhor Olindo deu-me as costas, não entendi nada, voltei e relatei ao meu pai, o ocorrido.

Passados alguns minutos, estou em casa, meu pai também, brotam em meu portão as figuras de meus primos distantes, dois filhos do “peladeiro”. O rapaz acabrunhado, a moça aos prantos. Perplexo, fui atendê-los. A moça foi quem primeiro dirigiu-se a mim, em meio às lágrimas perguntando-me “como eu tinha ficado sabendo que seu pai tinha sido atropelado em Campos”. Sofri um baque, dei dois passos para trás, e após me recompor disse que eu não estava sabendo de nada disso. Fui conversando para entender o que ocorrera.

Bem, como disse noutro parágrafo, a mensagem do adolescente, para ser entendida, deve estar livre de qualquer outro ruído que não o que habita sua própria fala atonal. O saudoso e vetusto senhor, coisas da idade, não ouvia mais tão bem e eu falava muito mal. Para agravar a situação, a circunstância: o Paulinho, a trabalho, tinha mesmo viajado para Campos dos Goytacazes. A família, juntando uma e outra coisa, entendeu o pior. O homem, para eles, não ia bater pelada no campo; tinha sido atropelado em Campos.

Esclarecidos os pormenores, os jovens voltaram à sua residência e decodificaram a mensagem aos demais. Eu procurei falar mais lentamente e ser ainda mais diligente ao dirigir-me a pessoas de idade. Mas que foi engraçado, porque não foi trágico, ah isso foi! Lembro-me até hoje daquele dia, como se estivesse desenhado nas páginas de minha memória. O Paulinho está muito bem; não bate mais pelada no campo, infelizmente, mas, graças a Deus, não foi atropelado em Campos, nem em nenhum outro lugar.

Júnior Dinucci

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