segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Parto

Não são as coisas acontecidas...

Essa poesia triste
Habita a multidão do que não foi,
O desejo arbitrariamente sufocado pelo não,
A vontade de ser afogada em medo alheio.

São versos feitos de miragens,
Rimas mortas,
Sepultada ilusão.

E o caminho segue
Frio e seco como a noite num deserto infinito
De céu sem estrelas,
Extintas pela estúpida cegueira
Que não enxerga o amanhã agora.

A música do poema
Desafina feita lágrima vertida,
Enquanto o canto da boca apaixonada ri-se de existir.

O improvável habita o esquecimento do poeta,
Que restou insensível
À multidão.

Tudo que gritam à janela do meio da sala,
Nada importa se a alegria alada
Corre distante
E, como um pesadelo infantil,
Amarra nossas pernas de ser.

Ao poema, amargura o não-mudar e,
Nada muda o mundo o nosso choro mais profundo,
Que nunca geme,
Que ninguém vê.

Por não deslizar líquido sobre as nossas faces,
Converte-nos em bárbaros miseráveis,
Lançados ao mar em fúria,
Potentes para suportar
As vagas vis da tempestade.

A métrica inexistente da vida desaproxima as identidades,
Materializa-se no poemar:
Transforma em pó e lança ao mar.

Criador e criatura fundem-se na mais pura cópula animal
De forma que, no entrelaçar incestuoso,
Alcançam qualquer plenitude.

Foge o poeta, na confecção do poema,
Que a vida é amarga longe da aceitação.

Escrever dá luz à paz; ou dá à luz a paz.

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