No começo da década de noventa, a vida, acho, era
mais espinhosa para a maioria dos brasileiros. Para mim que, inda hoje,
preciso muito correr atrás, não era diferente. Tempos difíceis aqueles,
de geladeira vazia... Na despensa, apenas o básico do básico. Mas
vivíamos.
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| "...vez ou outra contemplavam nossa pequena casa." |
Diferentemente, havia no mesmo aglomerado de terra e
gente em que residíamos alguns que sobreviviam a duríssimas penas; quem
não tinha mesmo à mesa o mínimo para suster-se, que passava muitas
vezes, como esses cães de rua, à mercê
do que a natureza, já rala, oferecia. Escalando pés de manga, abiu,
goiaba, jambo; comiam do que a estação tinha, ou não tinha.
Uma vez, isso nunca me esqueceu, saí de casa com uma laranja. Essas
frutas nacionais, mais populares, vez ou outra contemplavam nossa
pequena casa. Parei conversando com um amigo (aqueles infindáveis e
pueris assuntos de crianças do tempo em que era possível estar na rua
sem ser da rua). Findo o raro sabor, descartei o bagaço num canto de
poeira por ali.
Minutos depois, chegou um garotinho, magro, raquítico mesmo, como que saído de uma dessas histórias de sertão. Assentou-se num cantinho acuado enquanto o outro garoto e eu falávamos de qualquer coisa, empolgados. Foi quando me assustei, vendo aquele menino debruçado sobre o resto, devorando o que eu jogara ali, à sorte do tempo.
Sou hoje bem pouco, trabalhando e estudando, cavando ainda, espremendo a vida em busca de alguma coisa, qualquer sumo, como um dia espremi aquela fruta. O pequenino, cuja vida sempre foi um bagaço, transformou-se em contraventor, esteve preso, creio que ainda está. Coisas desse mundo, tão injusto quanto é.
Eis a lição: para um pobre, há sempre outro mais pobre. Para um endividado, outro em desespero. Para os dois, alguém apodrecendo em vida, aguardando, somente, o chamado da morte. E o garoto não me sai da cabeça. É bom mesmo que não saia. Não sei se poderia mudar sua vida, mas pesa-me não lhe ter buscado uma laranja.
Minutos depois, chegou um garotinho, magro, raquítico mesmo, como que saído de uma dessas histórias de sertão. Assentou-se num cantinho acuado enquanto o outro garoto e eu falávamos de qualquer coisa, empolgados. Foi quando me assustei, vendo aquele menino debruçado sobre o resto, devorando o que eu jogara ali, à sorte do tempo.
Sou hoje bem pouco, trabalhando e estudando, cavando ainda, espremendo a vida em busca de alguma coisa, qualquer sumo, como um dia espremi aquela fruta. O pequenino, cuja vida sempre foi um bagaço, transformou-se em contraventor, esteve preso, creio que ainda está. Coisas desse mundo, tão injusto quanto é.
Eis a lição: para um pobre, há sempre outro mais pobre. Para um endividado, outro em desespero. Para os dois, alguém apodrecendo em vida, aguardando, somente, o chamado da morte. E o garoto não me sai da cabeça. É bom mesmo que não saia. Não sei se poderia mudar sua vida, mas pesa-me não lhe ter buscado uma laranja.
Júnior Dinucci

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